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É preciso correr riscos

Munich - Two boys playing in a park - 7328
Leio na coluna Tiraram o gira gira, de Carolina Delboni uma história que tem se tornado cada vez mais frequente. Depois que uma criança se machucou em um gira-gira, a mãe, indignada, fez com que o clube tirasse o brinquedo. Nada pior do que impedir a brincadeira em nome de uma falsa sensação de segurança. Depois do gira-gira o que mais irão tirar?

Há algum tempo conheci um vídeo que veio a se tornar um de meus favoritos. Trata-se de uma palestra de Gever Tulley, no TED. O nome do vídeo não poderia ser mais instigante nem mais aterrorizante para alguns pais: 5 coisas perigosas que você deve deixar seu filho fazer. A palestra em questão, realizada em 2007, continha uma seleção de atividades do livro 50 Dangerous Things (You Should Let Your Children Do), não editado no Brasil.

Tulley nos conta em seu vídeo e também no livro, que não tem filhos, mas que há anos observa o comportamento dos filhos de amigos e familiares. Dessa experiência ele concluiu que a melhor maneira de garantir a segurança de uma criança é tirar as barreiras e as "redes de proteção". Ele aconselha o público abismado a deixar suas crianças brincarem com fogo ou com facas, desrespeitar alguma lei (no caso ele fala de violar a proteção contra cópias de um vídeo) ou arremessar dardos. O público assiste com risadas nervosas, mas a tese é forte: ensinar uma criança a lidar com fogo pode dar o conhecimento fundamental para evitar incêndios (ou combatê-los, se necessário). Ensinar a usar um canivete pode evitar acidentes graves, que quase sempre são causados pelo desconhecimento das técnicas seguras para usar uma lâmina.

Há anos Tulley dirige um acampamento destinado a proporcionar esse tipo de experiência às crianças americanas. Em uma semana, os educadores apresentam noções de segurança e as crianças, empoderadas de seus novos conhecimentos, utilizam ferramentas elétricas, serras, facões, martelos e ferros de solda para construir brinquedos.

Nada disso é novo. O autor fala de algumas coisas que todas as pessoas da minha idade faziam com toda a naturalidade quando crianças e que hoje são proibidas para qualquer "pai de bom senso", seja lá o que isso for. Coisas simples como ir até a escola sozinho, brincar no gira-gira ou no trepa-trepa, ficar em pé no telhado, brincar com gelo seco, andar com os olhos fechados ou colar os dedos com super bonder. Ele até se arrisca a alguns experimentos que só têm risco social, como cumprimentar uma pessoa com um beijo (o livro foi escrito para o público norte-americano) ou pedir informações a um estranho na rua. Na verdade, ele questiona a noção de que essas atividades são perigosas. Segundo o autor, um dos conselhos mais estúpidos que alguém pode dar a uma criança é proibí-la de falar com estranhos. Quando uma criança se acostuma a conversar (sob cuidadosa, mas distante supervisão dos pais) com qualquer pessoa, ela aprende a identificar padrões de comportamento. Isso a torna muito mais capaz de identificar um estranho mal-intencionado. Como é impossível prever quando uma criança vai se deparar com a necessidade de fazer essa distinção, é sempre melhor municiar os pequenos com essa noção o quanto antes.

Algumas dessas coisas eu também fiz. Desde muito cedo eu ia sozinho para a escola, andando com colegas de minha idade. Fazia fogueiras. Aprendi a andar sozinho de ônibus e metrô antes dos dez e passava horas fora de casa, brincando na casa de amigos, andando de biclicleta ou simplesmente caminhando pelas ruas do bairro. Meus pais (e a maioria dos pais da minha geração) eram corajosos o bastante pra permitir que eu e meus amigos corrêssemos esses pequenos riscos. Eles não eram displicentes ou irresponsáveis. Apenas aprenderam a confiar em ter nos ensinado bem as regras simples de segurança que nos fariam voltar pra casa (mais ou menos ) inteiros.

Perdi a conta de quantas vezes furei o pé em um prego andando em alguma construção perto de casa. Ou das vezes em que me cortei, ralei os joelhos, queimei alguma parte do corpo. Vivia me sujando de terra, colocava a mão e sabe-se lá mais o que na boca, comia frutinhas direto do pé. Milagrosamente nunca quebrei um osso nem tive sérias intoxicações, mas não foi por falta de oportunidade. Não sei como sobrevivi, mas de um jeito ou de outro, a maior parte da minha geração e das anteriores também sobreviveu a tudo isso.

O belíssimo documentário "Território do Brincar", de David Reeks e Renata Meirelles, já citado por mim outras vezes, mostra brincadeiras "perigosas" de crianças em diversas localidades no Brasil. Com facões enormes, crianças cortam pedações de madeira para construir seus próprios brinquedos. Outras nadam, sobem em árvores, usam fogo para cozinhar e brincar. Serão loucos os pais dessas crianças do interior brasileiro? Ou serão mais lúcidos que os pais das grandes cidades?

Hoje vivemos em uma época de superproteção. O ápice do carinho familiar é usar sabonetes "anti-bacterianos" líquidos, dispensados por saboneteiras eletrônicas para que a criança não precise nem tocar em um botão contaminado. Andar pela rua sozinho, deixar uma criança usar ferramentas reais ou brincar com fósforos são considerados os símbolos máximos da irresponsabilidade parental. Essa proteção toda deveria evitar completamente qualquer tipo de adversidade na vida dos pequenos. Infelizmente não é isso o que ocorre. Há pouco mais de um ano, um menino foi atacado por um tigre no zoológico de Cascavel, Paraná. O vídeo que circulou exaustivamente pelas redes sociais não deixa dúvida: o menino já havia provocado um leão, cutucando seu focinho com um pedaço de pau. Depois, passou alguns minutos provocando o tigre, correndo pra um lado e outro, subindo na cerca e, finalmente, enfiando o braço pela cerca, tudo isso diante dos olhos e da câmera do pai.

Minha tese a respeito desse e outros acidentes semelhantes é controversa. Até hoje encontrei poucas pessoas que concordam comigo, mas acredito realmente que o menino não foi mordido por falta, mas por excesso de proteção. Explico: uma criança criada longe de qualquer risco, desde os mais simples, como brincar no trepa-trepa, até os mais complexos, como brincar com facas e fogos, não é capaz de avaliar corretamente os riscos e garantir sua própria segurança. Sem contato com um animal doméstico, uma criança não pode entender o risco de provocar um animal selvagem. Sem aprender a atravessar ruas tranquilas, passear sozinho ou utilizar o transporte público, essa criança pode se perder em seu próprio bairro ou se expor ao risco de uma travessia perigosa.

Por tudo isso, é muito muito mais perigoso evitar a exposição de uma criança a riscos controlados, protegê-la de tudo no mundo do que os riscos, muito menores, de que ela sofra algo em uma dessas situações. O que queremos para nossas crianças? Eu acredito que o melhor é esperar que sejam pessoas autônomas e capazes de tomar decisões rápidas e acertadas o mais cedo possível. A proteção extrema, em vez de evitar perigos, aumenta a sua probabilidade.

Para proteger mais uma criança, nada melhor do que ensiná-la a proteger a si mesma. E nada melhor para isso do que fazer com que ela corra perigo. Nada é mais perigoso do que a ilusão de segurança.

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