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Fermata

A não ser por mim, o vagão parte vazio. Em raras ocasiões, normalmente nas manhãs no meio de feriados prolongados isso acontece. Passei por isso poucas vezes. Há muitos anos era em Santana que eu entrava em um desses vagões privativos uma ou duas vezes por ano. Agora estou no extremo oposto e vez ou outra a cena se repete. Carrego um livro mas não consigo avançar na leitura. A tranquilidade desperta mais atenção. Saboreio o momento e ouço os sons do trem: as rodas nos trilhos, o motor, a ventilação. Nenhum som humano (a não ser os que eu mesmo produzo) invade a quase quietude da máquina. Na estação seguinte cinco pessoas entram. Uma mulher sozinha como eu escolhe um lugar à minha esquerda. Outra mulher entra com um menino de uns doze anos. Sentam-se lado a lado, mas não falam nada. Um garoto senta-se encolhido no banco do fundo e mexe no celular. Por alguma razão, mesmo mais cheio, o vagão segue sem palavras. À minha frente está o assento preferencial. Um homem idoso se aproxima ...

Sobre ideias incríveis e pizzas frias

Confesso que muitas vezes, em locais públicos, presto atenção nas ações e conversas alheias. Quem nunca fez isso pode ficar à vontade pra me condenar. Hoje, na fila do mercado presenciei uma cena que me emocionou e me deu o que pensar. Estavam bem atrás de mim, na fila, um homem, mais ou menos da minha idade e um garoto, seu filho, que me pareceu ter uns 10 ou 11 anos. Conversavam normalmente e pude ouvir tudo o que falavam enquanto a fila não andava. Entre outras coisas, o menino perguntou: "Pai, tem suco em casa?", ao que o pai respondeu que devia ter de um sabor só, mas que iriam fazer compras na semana que vem, quando a mãe voltasse. Compreendi que a mãe estava viajando e aquele pai e o filho passavam um tempo sozinhos, por conta própria. Foi então que aconteceu a parte que me tocou. De repente os olhos do garoto brilharam e ele disse: "Tive uma ideia!". Falou isso reforçando longamente cada sílaba, daquele jeito que as crianças fazem quando querem contar algo...

Humilhação eterna?

Ainda sob o efeito do Alemanha 7 x 1 Brasil, comecei a pensar em momentos catastróficos da minha vida. Percebi que tive muitas perdas, algumas irreparáveis. Outras, que pareciam irreparáveis, perderam o significado depois de algum tempo. Entre as da última categoria, eu me lembrei da maior humilhação que já sofri. Entre 87 e 90 eu fiz parte de uma banda de música no Jd. São Paulo. Ainda guardo alguns bons amigos daquela época. No final de cada ano, fazíamos uma festa com um sarau. Pequenos grupos eram formados para tocar uma ou duas peças cada. Naquele ano, acho que em 89, todos os trompistas resolveram apresentar um número. Um pout-pourri de músicas eruditas com destaque para temas escritos para trompas. Éramos cinco: O Davi, que fez o arranjo, o Marcelo, o Flávio, o Almir e eu. O arranjo não era muito complexo. Alguns temas se sucediam, tocados a três vozes. Não havia solos nem maiores complexidades. Mas em sua simplicidade os temas festivos e solenes de diversas épocas soavam muit...