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O de sempre, por favor!

Eu devia estar no terceiro ano e sempre voltávamos para casa depois da aula caminhando. A escola não ficava longe da minha casa, mas para nós o caminho era longo (naquela época todo caminho era longo). Éramos sempre três: o Renato, o Hélio e eu. Eram meus melhores amigos. Falávamos de todas as coisas importantes quando se tem nove anos: coisas nojentas, insetos, super-heróis, futebol e até da escola! Falávamos mal das meninas, mas éramos apaixonados pela professora.
Fazíamos sempre do mesmo jeito: saíamos pelo portão da escola e íamos pela rua de cima, nunca a de baixo! Brincávamos com uma cadela que ficava numa garagem. Ela não era uma vigia muito boa, pois virava de barriga pra cima e nos deixava fazer carinho. Talvez ela soubesse que nós não éramos perigosos, sei lá.
Quando chegou o calor, o sol esquentava muito e o caminho parecia a travessia do deserto. No meio do caminho havia uma vendinha, dessas que têm um pouco de tudo. O atendente era um moço magro, muito alto (naquela época todo mundo era alto). Usava uma barba rala e cabelos compridos meio despenteados. Estava sempre de jeans e camiseta. Minha mãe dizia que ele era hippie, mas eu não sabia muito bem o que era isso. Seu nome era Sérgio.
Todos os dias parávamos no bar e pedíamos um copo de água. Sérgio nos servia e, enquanto tomávamos a água, ele conversava conosco. Às vezes havia mais gente no bar e ele não podia conversar muito, mas nunca deixou de ser atencioso conosco. O Sérgio era nosso amigo adulto e nós o achávamos muito legal. Depois de sair do bar sem sede o resto do caminho era sempre mais fácil e conseguíamos fazer coisas interessantes, como chutar uma latinha no chão ou apostar uma corrida até a capelinha da esquina.
Depois de um tempo, paramos de pedir água. Entrávamos no bar e pedíamos “o de sempre, por favor!” e achávamos isso muito divertido. Nós éramos os clientes e o Sérgio era o barman que nos servia a bebida habitual. E mesmo que não tivéssemos um centavo no bolso e só tomássemos água, nos sentíamos especiais.
Um dia, como sempre, entramos no bar fazendo o nosso pedido habitual.
– O de sempre, por favor!
– O de sempre? – ele confirmou.
– Sim, dissemos animados.
Ele foi ao balcão, pegou uma garrafa de guaraná e três copos. Nós não entendemos o que estava acontecendo, tentamos pedir pra não abrir a garrafa
– O de sempre é só água.
– Nós não temos dinheiro.
– É por conta da casa. – ele nos tranquilizou. Ficamos um pouco confusos, mas qual criança recusaria um copo de guaraná? Tomamos contentes, agradecemos e fomos embora, comentando o fato. Ficamos curiosos, imaginando por que ele teria feito aquilo, se era uma data especial, se era porque nós íamos lá todos os dias, se era por pena de nunca termos dinheiro.
– Não sei não, minha mãe me disse pra nunca aceitar nada de estranhos, eu disse com receio
– Mas ele não é estranho – o Renato contestou – minha mãe compra pão aqui todo dia. Isso resolvia tudo. Deixamos pra lá e fizemos a linha de largada pra nossa corrida.
Depois desse dia, demoramos um tempo até passar lá novamente. Acho que choveu. Talvez só tenha se passado mesmo um fim de semana (naquela época, o tempo passava de forma diferente). Na próxima vez que fez sol e ficamos com sede, combinamos antes de entrar que iríamos pedir só um copo d’água, para não haver dúvida. Mas quando entramos, o Sérgio não estava no balcão. Só havia o velho dono do bar, que deu a água de má-vontade. Bebemos e saímos logo, com medo do homem. Saímos desconfiados. Onde estava nosso amigo?
– Será que ele foi mandado embora por causa do guaraná que deu pra nós?
– Será que é por isso que o dono do bar olhou pra gente de cara feia?
Paramos de entrar naquele bar a caminho de casa. Em parte, porque o tempo esfriou e não tínhamos tanta sede, mas principalmente porque nos sentíamos mal com aquela história. Já não podíamos brincar de pedir "o de sempre". Achávamos que de alguma forma éramos culpados pelo sumiço do nosso amigo. E tínhamos medo do dono.
Nunca mais falamos sobre isso. Todos os dias, passávamos por ali sem nunca mais entrar nem fazer qualquer comentário, mas muitas vezes eu vi o Renato ou o Hélio olhando pra dentro, talvez esperando, como eu, ver nosso amigo de volta. Eu nunca mais soube nada dele. Quando cresci um pouco, entendi que nós não devíamos ter relação com o seu sumiço. Hoje eu gosto de acreditar que, sabendo que aquele seria seu último dia naquele trabalho, ele quis dar um presente de despedida para os seus pequenos clientes habituais. E mesmo que ele não tenha bebido conosco, gosto de imaginar que estávamos brindando a algum fato bom da sua vida.

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